A gnose do Bom Jesus do Monte



2017-03-14

Sempre tive um fascínio pelo Bom Jesus do Monte. É um local de reencontro comigo mesma, com a minha história pessoal, familiar, profissional, mental, afetiva e coletiva.

Recordo com saudade as memórias de tenra idade. As subidas ao escadório com os amigos da minha rua e respetivos pais atentos e carismáticos. Os passeios de bicicleta e de barco. E também os almoços de Domingo, ao som de Julio Iglesias, no salão de chá, com os melhores anfitriões de sempre.

Cada chegada representa um regresso a casa, a um lugar que sinto pertencer. Há sempre um mistério à espera de revelar-se, entre olhares enigmáticos perante o que presto atenção, consoante o estado de espírito, que me movem intrinsecamente a mergulhar, acedendo a camadas profundas, sentindo o simbolismo do arquétipo de escorpião que vê além das aparências.

Ultimamente tenho refletido sobre o simbolismo patente no monumento, admirado a arte e sabedoria gravada ao longo do deslumbrante e também temeroso escadório. Identifico a dualidade humana, a luz e a sombra. Um legado de Jesus Cristo e de tantas pessoas que abarcaram acima da normalidade, de diferentes áreas do saber, que expressaram o funcionamento do macro e microcosmo, num só local, expressando o que Jung chama de arquétipo.

Interpreto o monumento como um convite à nossa viagem de "individuação", a libertarmo-nos das crenças e condicionamentos familiares e sociais, para sermos em essência divina, tudo o que somos capazes.

Deparamo-nos com as fontes do sol e da lua no início do escadório, a representarem a nossa identidade , a forma que nos apresentamos ao mundo e as nossas emoções.  A energia masculina capaz de agir e impôr limites (yang) e feminina que nutre e cuida (yin). Começa o reconhecimento dos saberes astrológicos e a projeção da sábia Mãe da infantil Psicologia, incapaz de medir o invisível, que fortemente molda a mente e os comportamentos individuais e em rede.

Começa "um percurso sombrio" entre capelas que espelham "a via dolorosa, a aceitação e a superação da dor de Jesus Cristo" e diversas fontes que gravam a história de cada planeta e a sua influência em tudo e em todos, com mais ou menos intensidade, conscientes ou não, vendo ou não. 

O facto é que a nossa personalidade total é afetada pelo dia, ano, hora e local do nascimento. Confirma-se que  não nascemos tábua rasa, como alguns defendem. Nada é ao acaso, desenganem-se da crença enraizada, que nunca questionaram, seres que nunca saíram dos vossos gabinetes científicos, para testarem na prática o que de facto funciona e vos serve primeiramente e depois aos demais, sendo que só terão crédito, quando se mostrarem congruentes com o que dizem e fazem, a colocarem o saber em ação, obtendo resultados visíveis e bem-estar.

Cada vez que percorro o caminho, é sempre uma descoberta, um alargar da consciência, apta a mudar e melhorar algo, em mim, em eterna aprendizagem, com mente humilde de principiante, pois reconheço que quanto mais sei, mais perciono o que me falta saber e o quanto o conhecimento é infinito e impossível de ser alcançado por uma só mente humana. Acredito mais, que cada um de nós, acede voluntariamente ao que mais lhe ressoa, ao que motiva intrinsecamente, respeitando as suas preferências arquetípicas, que quando exploradas, reconhecidas e valorizadas, revelam-se frutos de um saber maior/superior, que podemos e devemos partilhar, energizando os que estão ao nosso redor, ao invés de lhes roubar energia perante as nossas frustrações e fraquezas, que nos apelam para que transcendamos estados estagnados/formas de pensar, sentir e consequentemente de atuar.

Quando chegamos a meio da subida, agora adultos, a pensarmos pela nossa cabeça, sem necesidade da validação alheia, tipicamente parámos, cansados da viagem. Respiramos e refletimos. Verificámos a paisagem que ficou para trás. Sentimos a confrontação dos opostos, a luz e a sombra, sempre presentes, que nos convida ao centro da viagem e a uma reação crítica mas positiva. Será que valeu a pena? O que aprendi com as minhas experiências e projeções? O que posso fazer agora, de diferente, na posse de mais informação? Identificando, reconhecendo e valorizando o percurso já realizado?

Ganhamos força, avançamos.  Visualizamos em frente, outras tantas fontes, que representam os sentidos, um sinal, para utilizarmos conscientemente os recursos inatos que dispomos, com sentido e significado. Um recomeço, uma revelação do que há de divino em nós, que funciona, por si só, sem nada termos de fazer. Um convite interior, metafórico, a morrermos, varrendo da nossa vida privada e mente pessoas, situações, crenças e mecanismos de defesa que de nada nos servem evolutivamente, só nos impedem de reconstruirmos a nossa história, em respeito pelo próprio DNA, que é único. Para quê ser cópia, o que acresce?

Creio na potencialidade de reconhecermos cada vez mais LÍDERES e CARISMÁTICOS.  A mostrarem a sua grandeza em essência, sempre que ultrapassam os desafios com que se defrontam, sem gastos de energia a culpar o sistema ou os outros. Indivíduos inspiradores e responsáveis que agem positivamente, baseados em valores humanos. Vão contra o pré-estabelecido que percebem ser infundado e estéril. Lutam corajosamente por aquilo em que acreditam. Priorizam e dão voz a movimentos progressistas que se materializam em congruência e de forma exemplar. Longe de ser uma utopia, é uma forma de estar na vida, que devia ser natural e espontânea, uma escolha consciente e assertiva de quem sente que todos fazemos parte de um todo maior, cada um de nós com um nível micro de consciência. Que veio do mesmo local  só e ao qual regressa, do mesmo modo, mais experiente, com o céu ou o inferno apenas na cabeça.

Isabela Eunice


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