A Gnose do Bom Jesus do Monte



Sempre tive um fascínio pelo Bom Jesus do Monte. É um local de reencontro comigo mesma, com a minha história pessoal, familiar e coletiva. Recordo com saudade as memórias de tenra idade. As subidas ao escadório com os amigos de infância. Os passeios de bicicleta e de barco. E também os almoços volantes de Domingo, no Salão de Chá, ao som de Julio Iglesias e com os melhores anfitriões de sempre.

Desde que comecei a interessar-me pelo inconsciente humano, tenho apreciado o infindável simbolismo patente ao longo do escadório. Há sempre um mistério à espera de revelar-se.

Interpreto todo o cenário como um convite ao Processo de Individuação, na segunda fase da vida, para sairmos da conserva coletiva e sermos em essência divina, tudo aquilo que somos capazes psicológicamente (Jung) e com a força da ancestralidade (Hellinger) desenvolvermos a nossa mente consciente e inconsciente (pessoal, familiar e coletiva), expressando concomitantemente a nossa individualidade no reconhecimento que somos uno, sendo que vemos o que emanos, a nossa luz e a nossa sombra, o outro espelha simplesmente o nosso estado de espírito e os contextos mostram-nos o que nos é prazeroso e/ou aquilo que repudiamos, todos na mesma tempestade ou calmaria, com uma paleta de recursos disponíveis, permitindo-nos saber quem somos e o que valorizamos, para sermos responsáveis pelas nossas escolhas, desde logo o que pensamos e sentimos, onde tudo germina.

No início do escadório, deparamo-nos com as fontes do Sol e da Lua, a representarem respetivamente, a nossa identidade (a forma que nos apresentamos ao mundo) e como manifestamos as nossas emoções, que depende do arquétipo do signo onde estão esses planetas astrológicos, que permite também percebermos como se manifesta a energia masculina (yang) que trazemos do arquético de Pai, capaz de agir e impôr limites e a feminina (ying) do arquétipo da mãe, que nutre e cuida. A representação de cada Ser Humano, que pertence a um núcleo familiar, 50% das células da Mãe e 50% das células do Pai, onde se inclui o que respetivamente herdaram dos ancestrais precedentes. Todos pertencemos a um sistema familiar, escolar, comunitário, social e global e cada um de nós impacta de forma diferente no local e no todo.

Começa o reconhecimento dos saberes astrológicos, o indubitável protagonismo da Astrologia, a Mãe da Psicologia- ainda uma criança que sofre de austeridade Paterna, que lhe corta a curiosidade e o desejo de experimentar, matando o processo evolutivo. Apesar da Psicologia Clássica ser considerada Ciência, mesmo que incapaz de medir objetivamente o que quer que seja e levante barreiras psicológicas ao que desconhece, nomeadamente aos fenómenos inconscientes da mente (Jung), que mais fortemente moldam e ditam os comportamentos e resultados individuais e em rede. Reconhece-se igualmente entre outros, os saberes da Filosofia Sistémica, da Matemática e da Biologia, mas a Ciência mais próxima da explicação dos fenómenos visíveis ou invisíveis e da ligação terrestre ao divino é a Física Quântica, que nos explica com evidências, o campo das infinitas possibilidades. Que tudo o que vemos e que nos acontece teve origem no campo espiritual. Primeiro os nossos cérebros projetam os nossos pensamentos e sentimentos, que transmitem uma determinada frequência/vibração energética para o universo, pelo que atraímos simplesmente o que emanamos. Basta recordarmo-nos de sítios que nos sentimos bem e outros que nos sentimos mal, assim como nos lembrarmos de pessoas com quem gostamos de estar e outras que nem pensar. Por vezes somos intuidos a fazer algo, sem qualquer explicação racional, sem questionamento ou julgamento, temos o recurso glândula pineal ativo, assim como a gândula timo, que nos permitem ver e sentir além do que é visível e já está a acontecer.

Se energéticamente estámos bem, nada nem ninguém nos afeta, nem tão pouco desvia de alcançarmos os nossos desejos/objetivos, simplesmente escolhemos conscientemente com quem estamos e em que locais. Já o contrário, se nos colocámos em estados de baixa energia, com pensamentos e sentimentos negativos, como por exemplo de incapacidade, baixo merecimento ou de vitimização, travamo-nos, bloqueámos-nos, por muito que façamos e nos esforcemos. Isto acontece porque o universo comunica connosco por ressonância, por ondas vibracionais. Logo aquilo que vibramos de forma consciente ou inconsciente, é de facto o que atraimos/visualizamos em nós e em nosso redor.

Começa um percurso sombrio entre capelas que espelham a via dolorosa, a aceitação e a superação da dor de Jesus Cristo (Rogério) e diversas fontes que gravam a história de tantos outros planetas e a sua influência em tudo e em todos, com mais ou menos intensidade, consoante a casa em que esteja no mapa natal individual, do país, da cidade ou do globo, conscientes ou não, está sempre a atuar o plano invisível. A verdade é que ninguém nasce tábua rasa, traz já informação disponível, que pode ou não aprender a aceder.

Quando chegamos a meio da subida, a transitar para a segunda etapa da viagem, tipicamente parámos, respiramos fundo, refletimos, acalmamos. Verificámos a paisagem que ficou para trás. Sentimos a confrontação dos opostos, que nos convida a uma reação crítica, focada no que controlamos, respondendo pelos nossos atos, que nos afetam, aos próximos e aos distais em qualquer parte do mundo, terrestre ou celestial.

Visualizamos outras tantas fontes, que representam os nossos sentidos, lembrando-nos de utilizar conscientemente os recursos inatos que dispomos, que funcionam, por si sós. Um convite interior, para nos transformarmos, pela integração das nossas sombras, reconhecendo que cada um de nós, com um nível micro de consciência, faz parte de uma consciência maior. Todos viemos do mesmo local, sós, com um hardware e um software que vai sendo mais ou menos potencializado, consoante os contextos e conexões, para refletirmos e nos superarmos. Regressando igualmente sós, ao mesmo local, mais experientes e conforme as tomadas de decisão em livre arbítrio, com o céu ou o inferno na nossa cabeça, até ao último suspiro.  

Isabela Eunice


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