Educar para a Carreira

2020-03-21

A Educação para a Carreira é um movimento que surgiu nos Estados Unidos da América, na década de 70, quando os políticos afetos à educação, perceberam dificuldades nos jovens que chegavam ao mercado de trabalho, identificando nas escolas um precioso potencial preventivo, sendo que podiam equipar as pessoas académica, pessoal, profissional e também socialmente (Hoyt, Evans, Mackin, Mangum, & Gale, 1997). Mais do que o desenvolvimento da pessoa humana, educar para a carreira, dirige-se ao bem comum (Guichard, 2005).

O desafio que a Educação para a Carreira coloca é saber como, numa abordagem longitudinal, os agentes educativos, sem saírem das suas funções especificas, podem proporcionar o desenvolvimento vocacional de forma progressiva, com ajustes à idade, começando do mais simples para o mais complexo e do mais familiar para o mais distante (Herr, Cramer, & Niles, 2004; Taveira, 2001).

Para o contexto estar em sintonia no tocante ao perfil que mostra, a educação para a carreira deverá ser exercida de forma infusiva (integrada em todos as disciplinas), garantindo-se o replicar da excelência e concomitantemente o sucesso do todo. As estratétias aditivas (num horário extra ou entre disciplinas) ou mistas (introduzidas em Ciências Sociais e Humanas), ficam aquém no tocante a sinergias e treino de "competências-chave" que servem o papel de estudante e demais papéis próximos e distais.

Ao intervir nesta área, os professores estão a consciencializar os alunos da importância do que estão a aprender, nas diferentes disciplinas, para o que vão precisar no futuro, nomeadamente para concretizarem objetivos profissionais (Moreno, 2008, p. 41).

O departamento de Educação e Ciência, do Reino Unido (1988), por exemplo, identifica quatro objetivos gerais para a infância e adolescência: (i) o aluno conhecer-se melhor (o que gosta ou não, valores dele ou de outros, capacidades, necessidades e prioridades); (ii) identificar oportunidades educativas e laborais (o que existe e o que necessita de desenvolver para preparar-se melhor); (iii) aprender estratégias para tomar decisões conscientes (tendo em conta o que conhece de si mesmo e as alternativas que encontra, o que necessita para escolher a mais adequada e refazer a escolha se o feedback assim o indicar, olhando para o processo como aprendizagem); e (iv) conhecer as características da transição escola/trabalho (procurar emprego implica conhecer as características pessoais, académicas, profissionais e sociais, estando sempre em atualização das mesmas).

Tendo em conta os princípios de educação para a carreira, Férnandez (1993) sugere que os professores, desde logo, devem aplicá-los primeiramente em si mesmos, conhecendo-se melhor (o que os levou a escolher a profissão, valores por detrás, se foram pessoais, familiares, socias ou escolares), as oportunidades e as estratégias que a cada momento identificam e precisam de aprender, como mais adequadas para alcançar os objetivos do perfil dos alunos) e aprenderem a lidar com as transições de vida, desempenhando assim, as suas funções de forma consciente e intencional, sabendo perfeitamente o que estão a fazer, como, quando e para quê, superando-se e fazendo cada vez melhor, em cooperação com os pares e demais envolvente, servindo a sociedade, além dos seus pupilos.

Os professores das diferentes disciplinas, devem e podem diversificar a intervenção, aumentando a curiosidade nos alunos e desenvolvendo a sua maturidade vocacional (Rogers, 1984). Exemplifica-se infra:

  • Podem recorrer a fichas onde cruzam os conteúdos dos programas com os objetivos de educar para a carreira.
  • Percebendo um obstáculo/desafio/imprevisto na sala de aula, têm a possibilidade de motivar os alunos a aprender via resolução de problemas, um método que passa por identificar o problema, dramatizar soluções, formular hipóteses, selecionar e aplicar as soluções mais adequadas de entre as alternativas, sendo surpreendidos com a criatividade das crianças.
  • Têm ainda a possibilidade de promover o treino de situações de vida, no contexto escolar (como, treinarem a língua estrangeira, fazendo de conta que estão a cumprimentar alguém, a chegar a um restaurante ou hotel ou a necessitarem de solicitar informações. Permite-se assim aos alunos experienciarem vários papeis, num mesmo local) e/ou noutros contextos (observarem in loco conhecimentos adquiridos nas diferentes disciplinas, através de um lugar ou do que uma pessoa faz, identificando que recursos são utilizados, o que tem de saber-se conceptualmente, que habilidades são necessárias para fazer algo, porquê e quando especificamente).
  • Ler histórias é outra sugestão, pois estas ajudam a planear, executar e avaliar, tomando em consideração, por exemplo, o livro “As travessuras do amarelo” de Rosário e González-Pienda (2011). A leitura e discussão do enredo da estória possibilita à criança identificar-se com as emoções, pensamentos e comportamentos das personagens, diligenciando um contexto impulsionador de aprendizagem vicariante (Bandura, 1986, cit. por Pereira, 2018).
  • Ver filmes, como por exemplo o “Divertidamente” de Docter (2015) para trabalharem as emoções afetas a transições de vida.
  • Pode-se convidar a envolvente escolar, inclusive os pais a irem à escola partilhar o que fazem no dia-a-dia e o quanto terem estudado disciplinas específicas os ajuda no desempenho da função profissional e outras. E também como os tornou independentes, autónomos e responsáveis. Ajuda expressarem como ficam contentes por contribuírem para a sociedade.
  • Tudo o que a criatividade permitir para chegar-se aos objetivos, é válido.

 

Da análise às competências e objetivos principais que caracterizam o perfil atual dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, em Portugal (Direção Geral da Educação, 2017), identificam-se comunalidades com os objetivos de educação para a carreira que são transversais, nomeademente o desenvolvimento pessoal, interpessoal, social e aprendizagem ao longo da vida. Assim sendo, considera-se que a Educação para a Carreira é uma prática potenciadora de ensino-aprendizagem, junto com outras ferramentas que ajudem a integrar o conhecimento adquirido, de forma a transferi-lo para ambientes próximos e distais, ao longo da vida.

Isabela Oliveira


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