O que é a psique?





2019-12-26

A psique é o local onde residem todos os conteúdos (conscientes e inconscientes) do ser humano. Funciona de forma compensatória, sendo que quando estamos num oposto, inconscientemente movemos-nos para o outro oposto, porque a psique procura sempre o equilíbrio. Temos de conhecer o escuro para valorizarmos a luz, o isolamento para darmos mais valor ao estarmos juntos e assim por diante. Estar nos opostos mais tempo que o necessário, por incompreensão do que está a passar-se, causa desequilíbrio mental, mal-estar e sensação de impotência ou vazio. A chamada pré-depressão, que nos sinaliza que algo precisa ser atendido para transcendermos as nossas competências atuais ou caso contrário afundamos num looping mental e fisico, ficando sem energia para discernir ou atuar assertivamente.

Carl Gustav Jung mapeou a psique, por diferentes camadas, ajudando-nos a perceber como tudo está interligado e como devemos promover o diálogo intra e interpessoal, que nos conduz ao equilíbrio e nos faz sentir inteiros e plenos, ao sermos tudo aquilo que de facto somos capazes. Trata-se de potenciar o software individual e consequentemente dos grupo e do coletivo. 

O que mostramos aos outros e estes reconhecem em nós é apenas a camada mais superficial da nossa psique, a Persona, que representa apenas até 10% da nossa totalidade, incluindo a camada consciente e o pré-consciente. 

O que achamos que somos, a nossa identidade e tipicamente escondemos dos demais, como sejam: as nossas memórias, os desejos, as capacidades, as fragilidades, a autoimagem e as reflexões mais intrínsecas e profundas, compõem o nosso ego, que estando bem estruturado, permite-nos dialogar com outras camadas mais profundas e trazer sinergias significativas ao contexto psíquico.

O que nos irrita ou incomoda nos outros e em situações do dia-a-dia, compõem a nossa(s) sombra(s). É tudo o que "eu não sou, nem pensar". É um convite para entrarmos em contacto com as nossas dores, que projetamos nos outros, para que possamos recuperar algo de “numinoso”, reconhecendo, valorizando, ordenando e integrando na nossa psique, permitindo-nos ver além da ponta do iceberg, sem chegarmos à irritação ou "tomarmos nós o veneno e querermos que seja o outro a morrer".

Aquilo em que acreditamos ser verdade, sem sequer questionarmos, são as nossas crenças, tipicamente inconscientes, criadas nos primeiros contextos de vida, como o familiar e/ou o escolar. Através da imaginação ativa, podemos e devemos questionar e dar-lhes um significado evolutivo enquanto adultos, na posse do livre arbítrio e tomadas de decisão conscientes.

Algo que aconteceu, fez com que guardássemos informações difíceis de lidar. Esquecemos por considerarmos irrelevante na altura ou reprimimos por terem causado dor, ativando inconscientemente em nós mecanismos de defesa, que regra são limitadores e/ou boicotadores. Quando a dor é ignorada pode criar trauma. Perante um incêndio, por exemplo, uma experiência dolorosa de estar-se entre chamas, pode ser encarado o medo, que acontece para proteger-me, reconheço a sua função e ativo mecanismos para salvar-me, saindo do contexto ou deixo possuir-me pelo medo, deixando-o ganhar força. Posso ter a sorte de vir alguém salvar-me, mas fica um trauma instalado, que irá ativar-se ao longo da vida, perante determinados acontecimentos que me fazem recuar inconscientemente a um passado traumático. Alguém que acende um cigarro faz com que a pessoa se contraia ou reaja com berros, com medo de um incêndio.

Ao percecionarmos as personagens/complexos que impulsionamos de forma padronizada e estão a causar desordem na nossa psique, podemos retirar-lhes energia para conseguirmos avançar, ao ativarmos outras competências menos desenvolvidas e que precisam de treino.

O que nos atrai no outro e nos deixa apaixonados são características que temos pouco desenvolvidas na psique. Tipicamente o homem é atraído pela anima- o seu lado feminino, a sua alma. A mulher pelo animus-o seu lado masculino pouco desenvolvido. Eu vejo no outro o que gosto/admiro e quero aquilo até que reconheça que existe em mim e deixe de precisar do outro para me dar o que sou capaz de dar-me, de forma autónoma e independente. Estar com o outro é uma escolha consciente, pelo prazer da sua companhia na minha caminhada e não pela incapacidade de dar-me o que preciso a cada momento.

O nosso trabalho de Desenvolvimento Pessoal, na segunda fase da vida, é sermos plenos, ao reconhecermos tudo aquilo que somos, valorizarmos e hierarquizarmos. Os desafios acabam? Nunca, são eles que nos fazem crescer e avançar de patamares, lidamos é de forma mais leve e assertiva, porque despoletamos mais e melhores recursos, sendo que o fora deixa de incomodar-nos porque atuamos desde a nossa essência (Self), refletimos e certificamos-nos de estarmos a fazer as melhores escolhas, tendo em conta os nossos valores e interesses.

Isabela Oliveira


Partilhar: