Porquê que o desempenho académico dos estudantes portugueses, está aquém do almejado?

2020-06-07

Apesar das sinergias de diferentes especialistas internacionais (e.g., representantes dos países membros da OCDE, UNESCO, Banco Mundial e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) no Projeto DeSeCo, desde 1997. Na cuidada definição e seleção de competências essenciais que os alunos devem integrar num percurso escolar obrigatório de 12 anos. Os dois últimos resultados do programa PISA (2015 e 2018), revelam que o desempenho académico dos portugueses, mantém-se aquém do esperado, colocando em causa a qualidade e sentido da Educação Escolar.

Dos motivos que a investigação identifica para os resultados obtidos, destacam-se os infra:

  • O facto dos professores não terem recebido formação para atuar interdisciplinarmente (Moreno, 2018); para ensinar dialogicamente (Alexander, 2008) e integrar o triplo conhecimento, que responde ao quê, ao como e ao quando, onde e ao porquê de convocar-se uma determinada situação ou tarefa (Ryle, 1949, cit. por Rosário, 2013).
  • Roldão (2005) menciona a necessidade dos professores distinguirem claramente os conceitos presentes nos currículos, desde logo, clarificar o que são objetivos (o que se pretende que o aluno aprenda em termos de conteúdos e conhecimentos académicos) e competências (como o aluno faz uso do que aprendeu, colocando o saber em ação, ultrapassando-se assim o saber inerte). Mais indica, que a autonomia e flexibilidade curricular, significa que os professores podem fazer o que quiserem com as orientações e recomendações, desde que atinjam os resultados. 
  • Rychen & Tiana (2005) referem uma visão restrita sobre a educação, centrada apenas num só papel-aluno e num único contexto-escolar.
  • Um olhar sistémico sobre a pedagogia (Costa, 2016; Frank-Gricksch, 2006, 2012; Hellinger, 2001; Hellinger, Weber, & Beaumont, 1998) clarifica a necessidade de reconhecer-se o papel da escola, da família, dos professores e dos alunos. 
  • A Pedagogia Sistémica, de Bert Hellinger e seus seguidores, como Frank-Gricksch e Olvera (2006-2020), defende a necessidade dos professores identificarem, valorizarem e respeitarem  3 leis fenomenológicas, que apesar de invisíveis, ocorrem em qualquer sistema. Se ignoradas e/ou desrespeitadas, criam desordem, mal-estar e insucesso. No que respeita, ao sistema escolar, as 3 leis aplicam-se: no direito do aluno pertencer (à família e à escola); no respeito pela hierarquia (os pais chegaram primeiro que os professores, sendo que merecem respeito hierárquico e o reconhecimento que fizeram o melhor que sabiam e podiam, com as oportunidades que tiveram) e no equilíbrio entre dar e receber (os pais dão a vida aos estudantes, justificando a existência das escolas e dando emprego aos agentes educativos, sendo que estes devem estar gratos, retribuindo aos pais, através dos filhos, proporcionando-lhes a melhor educação que puderem e conseguirem).
  • Ao ter-se conhecimento da interdependência e do papel de cada um, na vida escolar e profissional, pode favorecer-se a participação mais ativa e um maior envolvimento dos alunos na sua própria aprendizagem, potenciando as oportunidades de ensino oferecidas (Sheldrake, 1998).
  • É de facto necessário perceber de onde vêem os alunos e como participam no planeamento da sua educação, porque através de formas próprias, os alunos favorecem mudanças sociais em curso e a transformação da noção de ameaça numa possibilidade de emancipação (Sarmento, 2006).
  • Stern (2017) refere o quão poderosas podem ser as experiências de lugar, quando formam, informam e transformam a relação dos indivíduos consigo mesmos, com os demais e com o mundo em geral.

 

Da revisão bibliográfica e análise à política educativa, fica evidente a necessidade de um novo perfil docente, justificando socialmente a existência da escola, enquanto sistema que certifica um perfil de aluno.

A verdade é que passamos do ciclo quantitativo para o qualitativo, cuja prioridade é a integração de competências práticas e transversais junto das académicas, por parte dos professores. Além dos conteúdos organizados por disciplinas, os professores devem ser capazes como outros profissionais o fazem, de diagnosticar e analisar cada situação, diversificando as práticas de ensino, até que todos construam o perfil almejado (Alarcão e outros reitores das Universidades portuguesas, 1997).

Citando Delors, trata-se de declarar amor à infância e à juventude, cumprindo-se a missão de desenvolver os indivíduos, as comunidades e as nações.

É crucial alargar a visão do que é a educação, sendo que serve mais que um papel (estudante) e um contexto (escolar). Importa também clarificar o que cabe aos pais e à escola. 

 Os professores devem consciencializar-se do propósito da sua função profissional e do exercício de uma cidadania ativa, autónoma e responsável, afetando positivamente o ambiente escolar, com pensamentos potenciadores, sentimentos, comportamentos e consequentemente com os resultados.

A resposta capaz reside no mindset da liderança carismática, visível nas condutas que se admira, sendo o foco direcionado para as soluções ao invés dos problemas, utilizando-se  a energia no que se controla e faz toda a diferença.

 

Isabela Oliveira


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