Porquê que o desempenho académico dos portugueses está aquém?

2020-02-25

Apesar das sinergias, desde 1997, no Projeto DeSeCo, de diferentes especialistas internacionais (e.g., representantes dos países membros da OCDE, UNESCO, Banco Mundial e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), na identificação e definição assertiva das competências essenciais que os alunos devem integrar num percurso escolar obrigatório de 12 anos, os dois últimos resultados do programa PISA (2015 e 2018), revelam que o desempenho académico dos portugueses, mantém-se aquém do esperado. 

O que se reconhece na investigação científica, que pode justificar o supra: 

- O facto dos professores não terem recebido formação para atuar interdisciplinarmente (Moreno, 2018); para ensinar dialogicamente (Alexander, 2008) e para integrar o triplo conhecimento, nas respostas ao: quê, como, quando, onde e porquê de convocar-se determinada situação ou tarefa (Ryle, 1949, cit. por Rosário, 2013)

- Fazer-se uma incorreta interpretação dos conceitos presentes nos currículos, como a não distinção entre objetivos (o que se pretende que o aluno aprenda em termos de conteúdos/ conhecimentos académicos) e competências (como o aluno faz uso do que aprendeu, colocando o saber em ação, ultrapassando o saber inerte). E não se perceber que autonomia e flexibilidade curricular, quer dizer que os professores podem fazer o que quiserem com as orientações e recomendações, desde que atinjam os resultados (Roldão, 2005) 

- Ter-se uma visão restrita sobre a educação, centrada num só papel-o de aluno e num único contexto-o escolar (Rychen & Tiana, 2005)

- Ausência do reconhecimento objetivo do papel que cabe: à escola, à família, aos professores e aos alunos (Costa, 2016; Frank-Gricksch, 2006, 2012; Hellinger, 2001; Hellinger, Weber, & Beaumont, 1998). Ignorando-se a interdependência e o papel de cada um, na vida escolar e profissional, impedindo-se a participação mais ativa e um maior envolvimento dos alunos na sua própria aprendizagem, permitindo-se assim, potenciar as oportunidades de ensino oferecidas (Sheldrake, 1998).

- É necessário perceber de onde vêem os alunos e como participam no planeamento da sua educação, porque através de formas próprias, os alunos favorecem mudanças sociais em curso e a transformação da noção de ameaça numa possibilidade de emancipação (Sarmento, 2006).

Da análise à política educativa e aos pareceres científicos, fica evidente a necessidade de promover-se um novo perfil docente, justificando-se socialmente a existência da escola, enquanto sistema que certifica um perfil de aluno, ao fim de 12 anos de treino de competências. Citando Delors, trata-se de declarar amor à infância e à juventude, cumprindo-se a missão de desenvolver os indivíduos, as comunidades e as nações.

É inquestionável que passamos do ciclo quantitativo para o qualitativo, cuja prioridade é a integração de competências práticas e transversais junto das académicas, por parte dos professores. Além dos conteúdos organizados por disciplinas, os professores devem ser capazes tal como outros profissionais, de diagnosticar e analisar cada situação, diversificando as práticas de ensino, até que todos construam o perfil de aluno almejado (Alarcão e outros reitores das Universidades portuguesas, 1997).

Os professores devem consciencializar-se do propósito da sua função profissional, exercendo uma cidadania ativa, autónoma e responsável, afetando positivamente o ambiente escolar e as pessoas, com pensamentos potenciadores, sentimentos, comportamentos e resultados. Stern (2017) refere o quão poderosas podem ser as experiências de lugar, quando formam, informam e transformam a relação dos indivíduos consigo mesmos, com os demais e com o mundo em geral.

 

 

Isabela Oliveira


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