Antigamente, antes dos espelhos, o que sabíamos realmente do nosso corpo?
Sem o reflexo, o corpo era vivido — não observado.
Com o espelho, começámos a ver-nos e a construir a imagem do “eu”.
Mas quando nos olhamos hoje, o que vemos?
O nosso olhar ou o olhar dos outros refletido em nós? Uma mulher gorda, magra, grávida, jovem ou idosa — não é sempre um corpo? E olhamos da mesma forma para o corpo de um bebé, de um adulto ou de um idoso? O corpo é palco do prazer e da doença. Nele, nada é separado. Somos um sistema vivo em constante movimento — um tubo digestivo por onde entra e sai tudo o que consumimos, e um tubo neural que traduz tudo o que sentimos e pensamos (Carmo, 2021).Fernandes (2021) recorda que o corpo nos dá as lições mais duras — e mais verdadeiras. É redutor pensar apenas na consciência cognitiva, como se fôssemos apenas memórias e pensamentos. A vida acontece no corpo. É nele que se expressa o “eu corporal”, o que vive antes de ser pensado. Apesar disso, na sociedade moderna, o corpo tornou-se imagem: a publicidade, o espelho, a passerelle das vaidades. Só na marquesa do médico nos lembramos de que ele fala — e de que é através dele que existimos. O corpo que pede repouso.
Soeiro (2021) fala da necessidade de reencontrar o corpo através do descanso.
A sesta é um encontro biológico e espiritual — uma pausa que nos religa interiormente.
Socialmente, é aceite dormir no Alfa Pendular, mas mal visto fazê-lo no trabalho.
O corpo é, ao mesmo tempo, instrumento social e refúgio pessoal.
Libertar-se psicologicamente é também reconectar-se fisicamente.Para Sobrado (2021), o teatro é o lugar onde o corpo se revela.
No palco, nada é mais real e mais espectral do que o corpo em movimento.
Corpos que representam e corpos que observam — todos vulneráveis.
O palco torna visível a fragilidade humana e o eterno retorno das emoções que já conhecemos.Castellanos (2021) explica que o corpo reage antes da mente compreender.
As informações sensoriais percorrem estações invisíveis: som, memória, emoção.
O corpo sabe antes que o pensamento formule.
É o marcador somático — o primeiro intérprete da emoção.
Nas escolas, deveríamos ensinar as crianças a reconhecer no corpo o medo, a alegria, a raiva ou a tristeza.
A postura fala antes da palavra.Castellanos (2020) revela a revolução científica do século XXI: os nossos órgãos comunicam. O intestino alberga a microbiota, que influencia o cérebro, o humor e até a forma como nos relacionamos. O que comemos, como nascemos, o ar que respiramos e até os antibióticos que tomamos moldam o nosso equilíbrio mental. Os pulmões ligam respiração e emoção: o modo como respiramos altera a atenção, a memória e o controlo emocional. Respirar pelo nariz, de forma lenta, é acalmar o cérebro. O coração sincroniza-se com o cérebro. Quando ambos comunicam, percebemos melhor o mundo e a nós próprios. Não é metáfora: é fisiologia. “Segue o teu coração” é, afinal, uma instrução biológica. Somos escultores do nosso corpo — e de tudo o que ele contém.
Saramago dizia que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome: essa coisa é o que somos”.
Talvez o corpo seja a casa onde essa coisa habita. E talvez cuidar dele, escuta-lo, seja, simplesmente, deixar de perder tempo.
Isabela Eunice