Em qualquer contexto profissional, há sempre alguém que se destaca - que parece mover o todo, ver mais longe e inspirar naturalmente os outros. São pessoas que não precisam impor-se: fazem acontecer, com atenção, visão e uma energia que organiza o caos.
Em grandes estruturas, mesmo com várias pessoas competentes, raramente são mais do que uma mão cheia, as que verdadeiramente comandam com sentido. E quase sempre há uma, em particular, que sobressai — a referência silenciosa, que os outros seguem porque lhe reconhecem algo de autêntico e raro.
Essa dinâmica lembra o funcionamento do corpo humano: um sistema integrado onde cada órgão cumpre a sua função, e onde o cérebro coordena sem substituir. Seria absurdo pedir ao fígado para pensar, ou ao rim para comandar. No entanto, nas organizações vemos frequentemente o oposto — pessoas sem visão sistémica a ocupar lugares de topo, tomadas pela ilusão da “estabilidade” e pela resistência à mudança e ao que é diferente daquilo que conhecem. O resultado está à vista: estruturas sociais obsoletas, adoecidas, equipas desmotivadas e um aumento exponencial de depressões, ansiedades e desorientação coletiva.
Também proliferam cursos de “liderança para todos”, como se bastasse aprender técnicas para ser líder. Mas a verdade é outra: há perfis inatos de liderança e há perfis inatos de contribuição. E ambos são fundamentais. Um líder nato reconhece talentos e cria as condições para que cada um brilhe onde é naturalmente bom e se sente intrinsecamente motivado/a. Forçar quem nasceu para executar com mestria a ser líder é desperdiçar recursos, potencial e gerar frustração individualmente e em rede.
O que distingue os profissionais excecionais dos restantes é a veracidade — consigo próprios, com os outros e com os contextos em que se movem. São coerentes: o que dizem e o que fazem coincide. Têm presença, foco, empatia e sentido de missão. São faróis que iluminam, não para serem vistos, mas para mostrarem o caminho. É neles que pensamos quando dizemos: - Admiro aquela pessoa. Tem carisma, é educada, responsável, procura soluções e inspira o melhor em mim.
Imagine agora uma sociedade em que cada pessoa soubesse quem é — sem filtros na relação intrapessoal, sem crenças limitantes ou máscaras herdadas, e pudesse expressar a sua totalidade psíquica e profissional. Cada um a ocupar o lugar certo no sistema, fazendo o que nasceu para fazer, aquilo que faz em flow e com elevada competência. Teríamos, naturalmente, organizações mais vivas, humanas e excecionais.
Como dizia Saramago "Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que levanta uma pedra e põe à vista o que está por baixo. Não é minha culpa, se de vez em quando, me saem monstros.”
Os profissionais excecionais fazem exatamente isso — levantam pedras, enfrentam monstros e, com isso, abrem caminho para que se possa ver e fazer mais e ainda melhor. Só podemos mudar algo que tenhamos consciência.
Isabela Eunice