O que é a psique? Para que serve reconhecê-la?

A palavra psique deriva do grego psukhê, -ês, vida, espírito. É a alma ou a mente.

Reconhecermos a nossa psique permite-nos desfrutar da relíquia de estarmos vivos e dotados da capacidade de evoluirmos permanentemente e de forma tranquila, pelo simples facto de expandirmos a nossa consciência e integrarmos em nós conteúdos desconhecidos, ignorados ou reprimidos.

Carl Gustav Jung mapeou a psique em camadas conscientes e inconscientes. Percebeu como tudo está interligado e como podemos e devemos dialogar com as diferentes partes e com o todo, para nos mantermos sempre saudáveis e plenos, independentemente das circunstâncias externas.

O que mostramos aos outros e estes tipicamente reconhecem em nós é só a camada mais superficial da nossa psique, a Persona.

O que achamos que somos, a nossa identidade e que regra escondemos dos demais. As nossas memórias, desejos, capacidades, fragilidades, autoimagem e reflexões, compõem o nosso ego. Estando bem estruturado, permite-nos dialogar com as outras camadas e trazer sinergias ao contexto psíquico. 

O que nos irrita ou incomoda representa a(s) nossa(s) sombra(s). Começamos a mergulhar no inconsciente. A entrar em contacto com as nossas dores, que projetamos nos demais, para que possamos recuperar algo de “numinoso” ao integrarmos características subdesenvolvidas na nossa psique. Começa aqui o verdadeiro trabalho de desenvolvimento pessoal.

Ao percecionarmos as personagens/complexos que impulsionamos de forma padronizada e causam desordem na psique, podemos retirar-lhes força e avançar conscientemente no desenvolvimento de outras energias psíquicas. Exemplifico o complexo do cuidador, que em qualquer contexto está sempre a nutrir os outros, mais cedo ou mais tarde, é dominado pelo medo, culpa, tristeza ou vergonha. Esquece-se de tomar conta de si, fica sem energia e entra em conflito mental.

O que nos atrai nos demais são características também inconscientes, logo subdesenvolvidas que projetamos nos relacionamentos. O homem fascina-se pelo Eros- a sua anima, a parte feminina da alma, que lhe falta, para se tornar mais sensível e flexivel. A mulher é seduzida pelo animus- a sua masculinidade interior ainda subdesenvolvida, que representa o logos. Tipicamente a mulher mostra a sua feminilidade fora e dentro é pragmática, forte, lógica, analítica e lutadora. O homem mostra a sua masculinidade fora e interiormente é sensível, recetivo e empático.

O objetivo de trabalharmos a anima/animus é deixarmos de precisar dos outros para projetarmos o que quer que seja. Conseguimos isso ao desenvolvermos em nós tudo o que procuramos fora. Estarmos numa relação passa a ser algo saudável, o resultado de uma escolha consciente de ambos. Cada qual existe de forma independente e autónoma do outro e é pleno de si mesmo. O estarem juntos cria uma terceira dinâmica autónoma, com vida própria. Estão juntos porque apreciam partilhar momentos, ao invés de colmatarem necessidades inconscientes, que os torna dependentes e logo fracos ao pedirem ao outro que faça por eles o que conseguem e devem fazer sózinhos. Respeita-se aqui a lei do amor entre dar e receber, defendida por Hellinger. Se um dá mais do que aquilo que recebe, conduz inconscientemente a um desequilíbrio psíquico.

Ao reconhecermos e aceitarmos tudo o que somos, consciente e inconsciente, deparamo-nos com o SELF, a totalidade. Assistimos à nossa própria transformação individual e humana. Deixamos de procurar fora ilusoriamente o que quer que seja, percecionamos que está tudo dentro de nós. Começamos a emanar o brilho do que é natural, o do Ser simplesmente, a que ninguém fica indiferente porque é autêntico.

Isabela Eunice


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